23/08/2004. Carlos Lessa es uno de los más renombrados economistas estructuralistas brasileros. Al frente del poderoso banco de fomento BNDES está entre los que más explicitamente defiende una política "nacionalista" en el gobierno Lula (lo que lo coloca en frecuentes conflictos otros altos funcionarios del área económica del mismo gobierno). En este 24 de agosto se cumplen 50 años del suicidio de Getulio Vargas, acto extremo con el que el viejo caudillo populista y figura mayor del nacionalismo brasilero del Siglo XX atajó una conspiración liberal-conservadora y le dió sobrevida al proyecto desarrollista en los años 1950. En este texto, escrito en el marco de la recordación de Vargas, Lessa defiende que el gobierno Lula es heredero del nacional-desarrollismo. [Texto en portugués] Nacionalismo após o furacão neoliberal Escreve Carlos Lessa, especial para Folha de S.Paulo, www.uol.com.br/fsp Domingo, 22 de agosto de 2004
É notável que, 50 anos após o desaparecimento de Getúlio Vargas, continuamos caudatários da agenda que ele inaugurou, e em torno da qual mobilizou grande parte da alma e da energia da nação. Foi ele quem colocou em pauta o imperativo nacional de um programa energético, de um programa logístico, de um programa da indústria de base via desenvolvimento da siderurgia.
O que somos, hoje, somos em grande parte como um produto da era Vargas. Não foram e não são sonhos abstratos: a Petrobrás é Vargas, a Vale do Rio Doce é Vargas, e o BNDES, que tanto me orgulho de presidir, é Vargas.
Não vou fazer um inventário das obras do grande presidente. Muitos o têm feito, alguns com grande competência. Estou mais interessado num aspecto ao mesmo tempo mais abstrato e mais decisivo. Vargas fez, na política e na condução do Estado, o que os modernistas fizeram com as artes, sobretudo com a literatura e a pintura após 22: ele desnudou a autêntica alma brasileira. Ele inventou nossa auto-estima no plano político. Ele nos fez acreditar em nossa própria capacidade de construir. Cumpriu o enunciado de Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Um presidente de alma seca achou, recentemente, que devíamos enterrar definitivamente a era Vargas. Quem fecha uma agenda tem a obrigação de abrir uma outra. Qual foi a agenda que abriu este presidente? Ele nos prometeu o sonho neoliberal. E começou a realizá-lo pela desconstrução da era Vargas, da era JK e da era Geisel. Mas o que ele fez de positivo, o que construiu? O que ele deixou como legado? Aqui, no BNDES, temos alguns legados dessa era que se pretendeu pós-Vargas. São os chamados esqueletos. Esqueletos da privataria, como a imprensa gosta de chamar.
Quando um dia for vista pelos pósteros, a história brasileira contemporânea perceberá como um mero acidente de percurso este período pretensamente revisionista. Claro, não somos nem saudosistas da estatização, nem indiferentes ao avanço inexorável dos processos econômicos, sociais e políticos.
A agenda de Vargas não vai se repetir literalmente. O que acontece é que, depois da desconstrução neoliberal, ela se recoloca em termos contemporâneos com todo o vigor. Ou não temos um desafio energético, de infra-estrutura logística, na indústria de base, um desafio da reconstrução do Estado desenvolvimentista?
Mas a agenda que a história e a nacionalidade nos estão impondo, na essência inspirada em Vargas, é, de novo, ainda mais crucial no plano abstrato que no plano físico. É isso que percebeu o presidente Lula, com sua fantástica sensibilidade política, ao repor no centro da agenda brasileira a recuperação da auto-estima nacional. Somos, sim, capazes de construir. Construir um lugar ao sol para cada um dos nossos concidadãos, fazer deste país uma verdadeira democracia social, promover nos trópicos o Estado do bem-estar social e do pleno emprego.
Vargas não imaginou isso. Imaginou uma industrialização que acabou acontecendo. Assim, nos ensinou a imaginar coisas aparentemente impossíveis. Se estivesse aqui, estaria sonhando o sonho social aparentemente impossível, o sonho da inclusão de todos os brasileiros que o presidente Lula colocou em sua pauta como prioridade absoluta.
Junto com a auto-estima, aprendemos de Vargas o sentido da nacionalidade. Deixamos de nos envergonhar de nossa realidade para querer transformá-la segundo as nossas próprias utopias. Tomamos, sim, consciência do nosso atraso em muitos aspectos, desde o campo industrial ao campo institucional. Mas aceitamos o desafio de construir uma nação que se respeita e se reconhece em instituições vivas, participativas, sócias do desenvolvimento material e espiritual do país. Sem chauvinismo, aprendemos a valorizar o que é nosso, nossas memórias e os legados dos nossos antepassados.
Enfim, com Vargas, nos vimos realmente como nação. E é assim que começamos a nos ver de novo -depois do furacão neoliberal que trocou o desenvolvimento com endividamento dos militares pelo endividamento sem desenvolvimento de Fernando Henrique Cardoso-, neste momento em que a agenda recuperada de Vargas nos aponta uma continuidade entre o nacional-desenvolvimentismo dele e de sua época e o desenvolvimentismo nacional democrático de Lula.
* CARLOS LESSA é presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). |